Aftersun

Já passa das 20h. Acabei de assistir ao filme e ao invés de engatar para qualquer outro, escolhi sentar para escrever, não quero que ele seja impregnado de outras impressões e distanciamento, quero escrever ainda sob o efeito do amor e acolhimento que senti ao assistir. 

Amor e acolhimento, seriam essas as palavras? Acho que está mais para entendimento, identificação. 

Em Aftersun, as imagens de uma antiga viagem vão surgindo e fazendo tranças nos fios da memória, da história de Sophie (Frankie Corio).

De férias em um resort na Turquia, aos 11 anos, Sophie viveu dias inesquecíveis ao lado do pai, assim como a descoberta da sexualidade. O longa possui uma passagem temporal de 20 anos, agora adulta, nossa protagonista relembra aqueles dias de viagem em uma tentativa de entender o pai e tudo que houve naquela época, mas está tudo fragmentado, parte é lembrança, outra é imaginação. 

Aftersun nos conduz à uma sala silenciosa dentro do nosso ser enquanto apresenta a relação de Calum (Paul Mescal) e Sophie

Calum, por sinal, tem uma atuação comovente de Paul Mescal (Normal People) como um pai amoroso, presente, mas também introspectivo, angustiado, impotente, vivendo as complexidades da paternidade e de uma vida que parece não ser a idealizada, na qual parece não pertencer, o que fica evidente quando chora, recusa-se a voltar para Escócia, mantém o olhar perdido, diz que apenas está cansado, esboça algum mal-humor. 

É difícil ser bom quando se está quebrado, mas Calum ignora isso, se esforça o quanto pode para criar belos momentos com Sophie e aumentar os vínculos com a filha que mora longe. 

Alguns dos momentos mais valorosos do longo residem na enorme na sutileza das imagens, nos detalhes da silhueta que revelam a dor e solidão de Calum, na composição das imagens que vemos nas televisões, no não-dito, mas sugerido. Ainda penso como Charlotte Well conseguiu capturar tantos sentimentos e tornar a trama tão comovente em um primeiro longa. “Talento”, logo respondo. 

Embalados pela inebriante ‘Under Pressure’ do David Bowie, a dupla entrega uma das mais belas cenas que vi este ano. 

Longe de mim ser fã de produtora, mas vamos aqui parabenizar a A24 por seguir uma rota de sucesso que mais uma vez nos traz um filme digno de ser conversado nas rodinhas de cinéfilos e indicado em sites e instagrams de cinema. 

Aftersun tem  todos os componentes que somados o tornam memorável, etéreo.

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