A baleia

Saí da sala atordoada. 

Estava em dúvida se teria gostado ou não, mas fiquei pensando que um sim vem com facilidade e se eu estava titubeando, podia ser uma inclinação para o não, isso me fez não escrever logo e deixar as emoções descansarem.

Darren Aronofsky é conhecido por seus personagens intensos, descontrolados, consumidos pelas emoções – em sua maioria negativas – uma verdadeira imersão no desespero da alma humana. Devo dizer quem em A Baleia, isso está num nível bem mais moderado que Mãe (2017), Cisne Negro (2010) e Requiém (2000). 

Ao contrário dos filmes anteriores, o longa possui um único ambiente, a casa de Charlie (Brendan Fraser), uma das formas de mostrar a limitação do personagem. O professor de literatura é obeso mórbido e passa os dias sem sair de casa, entre comidas e redações, uma vida solitária, fruto de pouca mobilidade e da ausência de visitas. 

Acompanhamos o dia a dia dele vendo cada dia da semana passar lentamente, assistindo como ele, em um exercício de profunda paciência, busca ensinar alunos a escreverem redações originais. Embora seja filmado em apenas um local, o filme não parece monótono, passeamos por toda a casa, mas passamos grande parte do tempo na sala, onde as aulas são ministradas com a câmera desligada, com a justificativa de que está quebrada, revelando a sensação de inadequação que ele sente quanto ao seu corpo. 

Nas horas vagas, Charlie tenta reestabelecer a relação com a filha adolescente (Sadie Sink), fruto do casamento fracassado com Mary (Samantha Morton). 

Ellie é mimada e desagradável, parece sempre querer ir embora e hesita diversas vezes, dada frequência que para diante da porta de saída e volta. Ela se ressente pela forma como a relação se quebrou anos atrás – fato que só vamos ter mais detalhes da metade para o fim do longa – e não parece querer dar uma nova chance para criação de laços entre pai e filha. 

Mary, em curta participação, protagoniza uma discussão acalorada com Charlie relembrando o término do casamento com argumentos tão convincentes dos dois lados que é difícil decidir quem estaria certo. 

Enquanto isso temos as idas e vindas na casa do missionário Thomas (Ty Simpkins), uma figura controversa que tenta converter Charlie e resgatar sua alma do que ele acredita ser o pecado. Há um imbróglio em que Thomas conta preguiçosamente sobre seu passado e dá a Ellie material suficiente para acusá-lo de erros e sujar ainda mais sua reputação. 

Todo esse amontoado de situações fazem com Charlie sofra com aumento de pressão, ataques de pânico e constante melancolia, o que é equilibrado/suportado somente pela comida.

Liz (Hong Chau), sua amiga e enfermeira pessoal é quem nos traz os momentos mais agradáveis e também os mais comoventes, é nela que reside a maior parte das respostas sobre a vida pregressa de Charlie e como ele chegou aos mais de 200 quilos em uma história que mistura amor, religiosidade e depressão.

Brendan Fraser não deixa a desejar como Charlie e apresenta um protagonista que passa horas em um ambiente com baixa luz, sujo, com poucos movimentos, um  estreito corredor e várias adaptações de cômodos como o quarto e o banheiro da casa que ampliam o entendimento das limitações de uma pessoa obesa.

Chalie guarda muitas dores e não encontrou resposta em uma crença, mas mesmo sem ter perto as pessoas que mais ama, procura ver a vida com otimismo e ver beleza na filha que é cruel e ríspida, ele repete várias vezes elogios a Ellie em uma contemplação do que ela pode ser e reforço do positivismo do personagem, revelado inclusive pelas palavras da ex-esposa. 

O final, criado para compensar a escuridão e dar a Charlie a libertação do corpo pesado de tristeza, solidão e agonias, traz luz a sua vida e a todos ao redor.

Darren não está preocupado em perfeição, ele quer derramar sua verborragia religiosa e aí está o meu incômodo, na forma como isso foi construído, deixando a obesidade em segundo plano e permitindo, muitas vezes, um tratamento cruel e estereotipado em relação a essas pessoas, seja pela sujeira da casa ou mesmo pela forma apressada que come e enquadramentos de câmera. Não cabe dar nota, é horrível avaliar alguém por um esforço de genialidade que eu bem sei que não chegaria nem perto.

Mas se é opinião de sim e não que você deseja ao ler esse texto até aqui, posso dizer que enquanto escrevo, passados dias após assistir, minha opinião não melhorou, pelo contrário, cada vez que repassei uma cena na minha mente ele parecia pior, mais carregada de desnecessária maldade da Ellie, do excessivo espaço dado a Thomas e sua descartável história de passado com fio frágil para uma ambígua redenção da adolescente, enfim, um filme que força Brendan a nadar sozinho em uma performance que é de entrega total de alguém que abraçou uma oportunidade após o ostracismo. Bem, é preciso abraçar uma decisão, essa é a minha, a sua pode ser diferente. 

A Baleia é baseado na peça de Samuel D.Hunter (que também escreveu o roteiro do filme) e chega aos cinemas de todo o país dia 23 de fevereiro.

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